terça-feira, 8 de agosto de 2017

Marillion - Clutching At Straws (1987)


Clutching At Straws por muito tempo foi meu disco preferido do Marillion onde o escutava exaustivamente. E não era por menos, realmente se trata dos trabalhos mais bem feitos da banda. Apesar de ser um disco que teve a missão indigesta de suceder o considerado pela maioria a obra prima da banda, Misplaced Childhood, não deixou a desejar e manteve a discografia da banda até então bastante homogênea e nivelada por alto. O disco é quase todo conceitual onde o fio condutor gira em torno de Torch, um homem de 29 anos cuja vida é uma bagunça. Procura conforto principalmente no álcool pra tentar esquecer coisas como um casamento fracassado e sua falta de sucesso comercial como vocalista de uma banda. A medida que ele se aprofunda em um estado ébrio mais pleno, Torch também escreve sobre o que passa ao seu arredor, suas emoções arrependimentos.

O disco começa com “Hotel Hobbies”, uma faixa bastante edificante, dinâmica e cheia de energia. Após umas breves notas de baixo e guitarra, começa com um divertido riff de teclado. A linha de baixo é excelente e o trabalho de guitarra muito bom e com direito a um belo e curto solo final, bateria é do tipo característica da banda, Fish está cantando muito bem e os teclados criam a atmosfera necessária pra música, principalmente na parte final criando uma ponte para a faixa seguinte.

“Warm Wet Circles” traz um dos melhores solos de guitarra da carreira de Rothery. O primeiro coro é edificante e dá vontade de cantar junto. Uma linda interpretação de Fish sobre uma banda de músicos preenchendo perfeitamente cada um o seu espaço. Ótima linha de baixo, guitarra suave, bateria firme e belas linhas de teclados que inclui o piano final que liga diretamente essa a faixa seguinte.

“That Time of the Night (The Short Straw)” é uma faixa que foi escrita por Fish em um quarto de hotel enquanto ele já pensava em sair da banda. Começa com uma instrumentação suave e ambiental lembrando o tom de “Hotel Hobbies”. Tem um dos melhores riffs de teclado de Mark Kelly. É uma faixa pesada de carga bastante 80’s, talvez seja uma música um pouco repetitiva na seção do meio, mas ao mesmo tempo apresenta um refrão que considero a melhor parte da música.

“Going Under” é uma faixa curta, porém fascinante que vai fazê-lo perceber algo novo sempre que ouvi-la de novo. Um belíssimo dedilhado de guitarra unido a um efeito de eco na voz de Fish ajuda a criar dinâmicas estereofônicas interessantes. A música fala sobre decair a um alcoolismo mais profundo e marca o pior estágio da vida de Torch.

Just For The Record” é provavelmente a faixa mais animada do álbum e que marca uma mudança no estado de Torch na história. Muito esperançosa baseada em um teclado otimizado, a cozinha é bastante enérgica. A música tem um vocal que flue muito bem com um interlúdio de teclado. Uma faixa bem diferente de tudo apresentado até agora, dá um grande contraste no álbum. O destaque maior fica por conta do belíssimo solo de teclado.

White Russian” pra mim é a melhor faixa do álbum e uma das melhores músicas de sempre da banda e que não tem mais nenhuma ligação com a história de Torch. Vocais brutais e letras marcantes sobre o surgimento dos neonazistas na Europa. É o momento menos acessível do álbum, digamos assim, traz o solo de guitarra mais técnico, vocais mais emotivos e de atmosfera perturbadora nos refrãos. Também é marcada por inúmeros seguimentos com boa melodia. Tem um final em tom misterioso através de um xilofone. Com certeza a faixa mais forte desse álbum.

Incommunicado” novamente traz um contraste de faixas no álbum. Saindo de uma linha sombria, mostra a banda de novo em uma sonoridade edificante. Essa música de cara me fez enxergar bastante reminiscência de Genesis dos anos 80 como a bateria pesada e o teclado com riffs marcantes. Torch está de volta sendo o personagem central que quer ser famoso, mas ao mesmo tempo não quer as responsabilidades que vem com a fama, algo com que o próprio Marillion passou nos anos 80.

“Torch Song” reverte a batalha árdua do nosso personagem contra o alcoolismo. Os vocais de Fish são excelentes assim como a forma com que a música é conduzida dando uma sensação real do que acontece com Torch neste momento. Novamente a atmosfera criada coloca o ouvinte dentro da história.

“Slàinte Mhath” e a anterior na verdade devem ser encaradas como uma única faixa. Começa com um piano antes da banda se juntar e produzirem uma melodia muito bonita. O baixo é o destaque trabalhando em paralelo com a bateria. Fish produz ataques vocais que lhe são característicos e o solo de guitarra embora curto e simples, brilha no final da música.

“Sugar Mice” é uma música bastante pesada do tipo que toca o coração. Torch parece está com problemas novamente. O baixo ambiente é belíssimo e serve de forma perfeita como plano de fundo para maior parte da música. Um dos trabalhos de guitarras mais belos da banda sob letras sentidas. Toda a banda parece tocar os instrumentos com ideias que saem do coração e vão para as mãos sem precisar passar pelo cérebro.

“The Last Straw” é a música que finalize o disco. Fala obviamente sobre a crise que Torch enfrenta,  trazendo um final tão apropriado quanto épico. Tem uma melodia bastante forte e a guitarra de Rothery é brilhante mais uma vez. Os vocais são insanamente poderosos e ficam melhor ainda na parte final quando Fish entra em dueto com Tess Niles. O final da história de é Torch feliz? Não, como ouvimos Fish gritar no final da faixa seguido por umas risadas insanas. Isso representa a vontade de Torch de desistir da bebida, mas que acaba sendo sempre tentativas falhas.

Um álbum bastante triste que conta a história de um alcoólatra falido através de algumas das melhores músicas da banda. Também marcou a despedida de Fish do grupo. É importante ao ouvir este álbum, tratá-lo como você faria com qualquer outro álbum conceitual, ou seja, com uma análise cuidadosa dos temas líricos e do que você já entende do conceito. Embora seja um conceito pesado, você pode desfrutar deste álbum como faria com qualquer outro sem ter que se preocupar com letras sombrias e às vezes deprimentes. 

- Tiago Meneses - 

Track Listing

1.Hotel Hobbies - 3:35
2.Warm Wet Circles - 4:25 
3.That Time Of The Night (The Short Straw) - 6:00 
4.Going Under - 2:47 ($)
5.Just For The Record - 3:09
6.White Russian - 6:27 
7.Incommunicado - 5:16
8.Torch Song - 4:04
9.Slàinte Mhath - 4:45 
10.Sugar Mice - 5:46 
11.The Last Straw - 5:58 


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