segunda-feira, 25 de abril de 2016

Renaissance - Scheherazade & Other Stories (1975)



Às vezes me pergunto sobre o que chamamos de rock progressivo sinfônico. Bom, sem sombra de dúvidas que as duas mais importantes nessa questão são Yes e Genesis, mas não creio que existe uma banda que consiga fazer essa definição soar de forma tão coesa e certeira como é o caso do Renaissance. A voz operística de Annie Hasslam é algo totalmente único no mundo musical e representam por si só o que a palavra sinfônica deve significar. E com certeza encontra-se em sua melhor forma em Scheherazade & Other Stories.

Renaissance é uma banda que sempre foi mais calcada em piano e vocais com arranjos elaborados, mas às vezes um pouco leve em comparação com a maioria das bandas de progressivo 70's, não fraco ou sem impacto, mas mais suave, apenas. Usando uma comparação com o boxe, se Genesis, Yes ou Emerson Lake & Palmer, são pesos pesados que podem matar o oponente com o primeiro (golpe) acorde, Renaissance é como um dos médios, que também precisa de estilo e elegância para vencer a luta.

“Scheherazade & Other Stories” trata-se de um álbum conceitual baseado nos contos árabes das 1001 noites. A base musical da obra está na suíte sinfônica, “Scheherazade” do compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov. A história que é contada no álbum é sobre Scheherazade, uma bela jovem, condenada a se tornar mais uma de suas ex-esposas, já que o mesmo, com medo de traição tinha o terrível hábito de decapitá-las após a noite de núpcias. Aí é que entra a barato da história, pra escapar desse destino que todas as suas outras mulheres tiveram, ela contava uma história para o sultão, ou melhor dizendo, mais um capítulo de uma história que ela jamais terminava, deixando ele assim curioso, e por consequência poupava sua vida, ao menos a princípio, pois ficava interessado no capítulo seguinte que ela tinha pra contar. Fez isso por incríveis 1001 noites, quando enfim, o sultão desistiu da sua intenção, fazendo de Scheherazade, sua rainha. E é com base nesse conceito que ““Scheherazade & Other Stories” foi desenvolvido.

"Song of Sheherezade" um épico de 24 minutos, é tão impressionante que as pessoas por conta dele costumam esquecer o resto do álbum, algo bastante injusto, porque o álbum pode ser visto como uma obra bem equilibrada e todas as faixas tem seus próprios méritos. Mesmo que realmente no fim das contas não tenham a grandeza daquela que fecha o trabalho.

O disco começa com, “"Trip to the Fair"”. Inicia-se com uma impressionante introdução de 3 minutos de piano sendo executado com extremo bom gosto, adicionado a uma leve mistura de coro e percussão, de repente é seguido pela maravilhosa voz de Annie. Talvez o problema com esta canção é que após a forte e enérgica abertura, a gente espere algo mais poderoso, mas a banda muda o sentido da música em direção a uma melodia suave a deixar o ouvinte em um mundo onírico, com alguns acordes de jazz que criam uma atmosfera viajante. Ao ouvinte mais exigente pode ser tratada como uma canção regular. Mas ainda assim, um grande começo de álbum.

"The Vultures Fly High" tem um saldo melhor, começa forte e termina da mesma maneira, menos sinfônica e mais orientada apenas em uma linha rock do que o resto do álbum, tem uma levada mais forte e rápida. Os membros da banda mostram que eles são capazes de fazer boas e curtas canções.

"Ocean Gypsy" é uma música mais suave, onde novamente os vocais de Annie são o destaque, com a participação evidente do resto dos membros, essa música é mais previsível do que todas as outras faixas, mas também bastante encorpada, deixando bem claro que a Renaissance é uma banda completa, não apenas um grupo de piano e voz.

O álbum encerra com "Song of Sheherezade", sem dúvida, o trabalho mais elaborado feito pela banda, um épico que tem tudo, exímios pianos, uma orquestra extremamente sólida, coro, além de excelente trabalho por parte de toda a banda. A atmosfera árabe é perfeita e os vocais de Annie Hasslam não são dignos de serem chamados de algo menores que sublimes. Possui mudanças espetaculares e explosões musicais súbitas. Uma beleza simplesmente fora do comum. Tudo feito com total cuidado, onde cada frase é encaixada como um perfeito quebra cabeça dentro de orquestrações que elevam o estado de espirito de quem as escutam.

Um álbum de rock progressivo sinfônico na sua maior essência. Uma sonoridade verdadeiramente mágica, com toda a certeza um dos mais originais também, pois ao contrário das demais bandas sinfônicas que citei mais acima, em momento algum o Renaissance prega uma sonoridade virtuosa. Tudo flui de forma encantadora e surreal.


Track Listing

1.Trip To The Fair - 10:48
2.The Vultures Fly High - 3:07
3.Ocean Gypsy - 7:05
4. Song Of Scheherazade - 24:52 

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sábado, 23 de abril de 2016

Moon Safari - [Blomljud] (2008)



[Blomljud] é o segundo álbum da banda sueca Moon Safari. Carrega vários elementos que unidos dão ao disco um resultado final extremamente belo. As harmonias vocais são lindas, isso graças ao fato de que todos os membros da banda tem uma voz muito agradável. Não somente agradável, mas constroem uma das mais bem feitas paredes vocais que pude ouvir no rock progressivo. A instrumentação é composta por melodias agradáveis, ricas, mas de fácil acesso, onde raramente apresenta-se intrincada. Percussão suave, mellotron de bom gosto, guitarras de 12 cordas e guitarras elétricas de sonoridades aprazíveis e tons muito bem escolhidos de sintetizadores. Uma música tranquila, inocente e muito bem elaborada.


CD1:

O primeiro disco começa através de, “Constant Bloom”, uma curta canção executada à capela por vocais extremamente afinados e sincronizados trazendo ao ouvindo uma sonoridade quase onírica. Mas na verdade pode ser visto também como uma preparação pra faixa seguinte, o épico, “Methuselah's Children”, em que o cenário musical é completamente diferente. Uma música brilhantemente estruturada, mudanças radicais de andamento, mas sempre se mantendo bem orientada, sabendo de onde vem e pra onde vai. Por vezes a canção lembra o também épico “Children Of The Sun” da banda inglesa de Neo-Prog da Magenta, mas claro, feito com sua própria personalidade em um equilíbrio perfeito entre todos os instrumentos.

"In the Countryside" é uma música de coros muito bem feitos, ainda que não seja uma canção tão forte quando a anterior, também carrega consigo uma beleza. Apesar de não ser uma faixa que empolga ela mantem o desempenho impecável dos músicos dentro de sua coerência sonora proposta no álbum. Suas passagens mais suaves faz remeter o ouvinte a Genesis.

Se o rock progressivo pode ser visto como uma fusão de vários estilos e sons, “Moonwalk” sem dúvida alguma é um dos melhores exemplos na prática dessa teoria. A faixa começa de maneira agressiva com uma sonoridade que passa perto do Hard Rock, mas logo se transforma em uma exibição suave de belas melodias e teclados exuberantes combinados com piano. Lembra um pouco ao Pendragon em sua melhor época, mas pra mim, soando de forma ainda mais polida e bela. A faixa seguinte é a lindíssima, “Bluebells”. Seus vocais principais são extremamente fortes, mas o que já está ótimo fica melhor quando são adicionados todos os backing vocals. A interação entre os instrumentos em um segundo plano é impressionante e fantástico, conseguindo soar simplesmente perfeito. Uma canção de elegância que dificilmente se vê com frequência onde todos os volumes estão no grau exato pra nada sair sobre nada e tudo ficar evidente. O primeiro disco chega ao fim com “The Ghost of Flowers Past”. Aqui a banda nos mostra uma nova faceta e o quão versátil que eles podem ser, os teclados (especialmente o melancólico mellotron) são simplesmente impressionante, ótima maneira de terminar o primeiro disco.


CD2:

"Yasgur's Farm" possui um frenesim até então não visto no álbum. Uma perfeita interação entre guitarra, bateria e órgão. Ao entrar o solo de sintetizador a música fica melhor ainda. Mas existe um ponto fraco e justamente naquilo que o álbum tem de mais belo no seu geral, os vocais. Soam desnecessariamente agudo em alguns momentos ao menos para o meu gosto. Mas a musicalidade soa tão bem, guitarras, teclados, enfim, que não acho que esse ponto fraco seja relevante.

Assim como na música anterior, novamente a banda surpreende, agora através da faixa, "Lady of the Woodlands". Dessa vez na construção de uma música que já começa em uma linda instrumentação orientada por uma cadencia folclórica medieval. Possui uma influência em Yes principalmente em trabalhos como Machine Messiah, mas de sonoridade mais étnica. Uma mudança agradável onde novamente a banda mostra o quanto pode ser versátil e singular quando querem.

A faixa seguinte é a mais longa do álbum. "Other Half of the Sky" é um épico com mais de trinta e um minutos. Como é normal acontecer em faixas desse tamanho, o começo pode não empolgar tanto, podendo soar inclusive bastante tedioso. A faixa se arrasta nos seus cinco primeiros minutos, mas tudo começa a ser recompensando com uma mudança radical, torna-se vibrante e absolutamente imprevisível, passagens frenéticas unidas a seções mais serenas, solos de guitarra, teclado e uma seção rítmica sólida, sensacional. A faixa apresenta tudo o que um fanático em rock progressivo espera. Músicos dano tudo de si em um som único, inovador e belo.

O álbum encerra com a música “To Sail Beyond The Sunset". Inclusive eu acho que deveria está em ordem invertida com "Other Half Of The Sky" devido a suavidade e melancolia que esfria muito o clima do álbum criado pela faixa anterior. Ótimos vocais e piano, mas funcionaria melhor se não fosse pra encerrar o álbum. Ainda assim, bela canção.

[Blomljud] é um álbum que nasceu com status de excelência. Um disco pra quem gosta do lado belo do rock progressivo sem precisar ser extremamente complexo e intrincado. Altamente recomendado capaz de agradar qualquer pessoa amante de uma boa música em geral.


Track Listing

DISC 1:

1.Constant Bloom - 1:26
2.Methuselah's Children - 15:42
3.In The Countryside - 5:42
4.Moonwalk - 8:48
5.Bluebells - 10:11
6.The Ghost Of Flowers Past - 9:47

DISC 2:

1.Yasgur's Farm - 8:05
2.Lady Of The Woodlands - 3:36
3.A Tale Of Three And Tree - 3:28
4.Other Half Of The Sky - 31:42
5. To Sail Beyond The Sunset - 5:18

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quinta-feira, 21 de abril de 2016

Rush - Moving Pictures (1981)



Sempre existem questionamentos por parte de algumas pessoas se o Rush é ou não uma banda de rock progressivo. Bom, de fato que nem sempre eles soam como uma, sendo muitas vezes um hard rock mais técnico, mas ainda assim, tem em sua discografia discos que sem sombra de dúvidas são extremamente progressivos e que hoje podem serem vistos inclusive como clássicos da vertente. 

Desde o seu primeiro álbum, Rush, em 1974, quando contava ainda com o seu primeiro baterista, John Rutsey, e que a partir do segundo daria lugar ao lendário Neil Peart, a banda foi sofrendo uma tremenda evolução em o seu som, saindo da “simplicidade” e buscando um caminho mais complexo, que vai desde os seus arranjos, musicalidade a até suas letras. Tendo provavelmente conseguido o seu apogeu através de Moving Pictures. Sendo o meu preferido ou não, é inegável que é o mais importante do trio canadense. 

O disco abre com "Tom Sawyer". Se você se considera alguém familiarizado com o rock clássico, mas não conhece essa música, de duas uma, ou você tem que rever o conceito de familiarizado ou o rock clássico que falamos são diferentes. Esta é uma música extremamente bem trabalhada e é a canção mais conhecida do Rush por uma razão, ela consegue equilibrar uma base de rock mais acessível com compassos ímpares e estrutura artística, tudo perfeitamente. Os sintetizadores aqui são maravilhosos, assim como toda a instrumental da banda que também é muito boa. Uma excelente faixa que nos faz cantar junto. Como curiosidade, no Brasil também ficou conhecida por conta de ser a música de abertura de "MacGyver - Profissão Perigo", transmitido pela Rede Globo na segunda metade dos anos 80. Só que fica o detalhe, a emissora que fez a sua própria versão de abertura, sendo a música e abertura originais bem diferentes da transmitida por aqui.

"Red Barchetta", bom, esta canção eu tenho algo pessoal com ela, me traz boas lembranças. A atmosfera é excelente, a instrumentação de novo é maravilhosa, solo de guitarra de Alex Lifeson quase no meio da música é simples e mágico. O trio realmente consegue criar uma canção perfeita. Sem exageros, excessos, mas principalmente, sem furos.

"YYZ" é um clássico instrumental do trio. Todos os três músicos extremamente inspirados mantendo tudo em equilíbrio. Possui feeling, virtuosismos, excelentes arranjos, entrosamento. Apesar de como dito, todos os três instrumentos serem destaque, algo que sempre me encanta aqui é a maneira cavalar que o Geddy Lee executa o seu baixo.

Agora é chegada a vez de “Limelight”. Já que no começo mencionei as letras da banda, aqui trata da opinião do baterista Neil Peart sobre estar no centro das atenções. O Rush é uma banda (principalmente Peart, seu principal letrista) incrivelmente inteligente com suas letras em todo o álbum, falei dessa em especial apenas por ser a minha (letra e não música preferida) do álbum e quis deixar uma nota particular. Como de costume mais uma instrumentação grandiosa. A guitarra de Lifeson realmente faz uma trilha linda.

“The Camera Eye”, é a faixa mais longa do álbum, com mais de 10 minutos de duração. Inclusive, depois dessa composição, a banda não fez nenhuma música que ultrapassassem os 10 minutos em nenhum dos seus álbuns posteriores. Não há muito que falar aqui, a não ser que eles criaram uma música que é extremamente expressiva desde a sua introdução até toda a passagem instrumental (sejam em conjunto, sejam em solos de Lifeson), tudo soa sempre interessante e com abundância de elementos de prog rock.

“Witch Hunt", está aí algo que eu não entendo, o motivo dessa faixa costumar ser tão esquecida. Tem seu começo com Lifeson "assombrando" com um riff de guitarra extremamente propício ao momento, assim como um vocal que define em um tom perfeito a canção. Bateria de Peart, sintetizadores e vocal por conta de Lee, além, claro, do baixo que também complementa essa música perfeitamente, culminando em uma explosão emocional junto com as não menos brilhantes letras de Peart.

O álbum encerra através de, “Vital Signs”. Em se tratando de “Moving Pictures”, costuma ser aquela faca de dois gumes, a quem a considere fraca para o álbum e a quem a considere a melhor música do disco. Mas sinceramente, não a vejo com o melhor momento, mas longe de querer dizer que não cai bem no trabalho. Possui uma excelente introdução com sintetizadores, um grande trabalho de guitarra jazzy por parte de Lifeson, a bateria de Peart que dispensa maiores comentários e o baixo de Lee fazem uma linha musical completamente coesa e impressionante, e falando em Lee, seus vocais aqui também merecem destaque, emotivos e únicos para a música. 

Antes desse lançamento, a banda já tinha atingido a sua popularidade e mostrado a capacidade de criação em obras grandiosas que haviam lançado. Mas não há dúvida alguma que nenhum álbum deu a visibilidade ao Rush no mundo da música como aconteceu em “Moving Pictures”, também pudera, uniram tudo em um álbum só, acessibilidade, complexidade, excelentes letras entre outros vários elementos. Um marco pra música daquela década que começava e que o tempo tornou um disco de importância atemporal. 


Track Listing

1.Tom Sawyer - 4:34

2.Red Barchetta - 6:08
3.YYZ - 4:24
4.Limelight - 4:21
5.The Camera Eye - 10:57
6.Witch Hunt (Part III of Fear) - 4:44
7 Vital Signs - 4:47

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quarta-feira, 20 de abril de 2016

IQ - The Road of Bones (2014)



Quantas bandas com mais de trinta anos de carreira conseguem fazer com que o seu trabalho mais recente seja o melhor? Se essa pergunta me fosse feita em 2014 antes que o IQ lançasse seu álbum The Road of Bones, responderia certamente que nenhuma. Mas desde aquele dia minha resposta é outra, afinal, The Road of Bones é sim em minha opinião o melhor trabalho da carreira da banda inglesa.

Mas ainda assim, como nada é unânime, qualquer álbum do IQ está obviamente sujeito a uma grande gama de opiniões que variam desde "obra-prima" até "não entendi muito bem", "não gostei de nada", "prefiro os clássicos". Mas acima disso tudo, vi nesse álbum que a banda não somente foi um dos resistentes ao "desaparecimento" iminente do progressivo no final dos anos 70, como mesmo depois de três décadas, mostram que obras relevantes e musicalmente tão ricas quanto os "anos de ouro" do gênero ainda estão entrando em catálogo.

Particularmente eu sou um fã da banda, tirando dois deslizes seguidos no final dos anos oitenta com seus discos, Nomzamo de 1987 e Are You Sitting Comfortably? de 1989, a banda sempre foi coesa lançando senão excelentes, ao menos bons discos. A versão que escolhi pra postar no blog é a de disco duplo, pra que assim a viagem seja completa e toda a experiência musical de The Road of Bones seja sentida.  A capa do álbum já é algo bastante condizente com a música em si, ou seja, um clima sombrio, uma tristeza melancólica sob uma névoa. Um dos principais responsáveis para que o desenvolvimento disso tudo tenha um grande resultado ficou por conta das mãos do tecladista Neil Durant que arquitetou tudo com extrema competência.


CD1:

O disco começa através da faixa “From The Outside In”. A música tem o seu início com a voz do ator húngaro, Bela Lugosi, que interpretou Drácula em 1931, a frase é justamente uma famosa do filme em que ele diz “listen to them, children of the night, what music they make”, isso junto de um som atmosférico. Então os instrumentos entram em uma explosão que faz lembrar um pouco o que a banda de neo progressivo dos seus compatriotas da Galahad fizeram nos seus discos mais recentes. Na abertura já nos é apresentado um poderoso mellotron, e segue assim por toda a faixa, exceto no momento que ela se acentua mais. O baixo dessa música é extremamente profundo. Uma música que tem um brilho melancólico incrível, assim como todo o álbum como poderão perceber conforme irão ouvindo. É uma das faixas mais pesadas que a banda em toda a sua discografia, quase um metal progressivo.

A música seguinte é a que dá nome ao disco. “The Road of Bones” é uma faixa simplesmente sensacional. Possui um brilho moderno, partes com teclados orquestrais, baixo fretless e uma instrumentação que varia entre uma grande leveza e crescentes partes sinfônicas que são avassaladoras, criando uma paisagem sonora soberba.

Em 2004, dez anos antes do lançamento de The Road of Bones, a banda gravou um épico, "Harvest of Souls", para o disco Dark Matter. Aqui digo que gravaram uma música companheira a ela chamada "Without Walls", algo me faz uma lembrar a outra. Um épico de mais de 19 minutos. A música tem o começo através de uma balada um tanto esquecível. Mas ainda bem que a musicalidade da faixa é substituída por uma levada de guitarra e baterias ao estilo "Kahsmir" do Led Zeppelin. No meio tem uma parte introspectiva criada por uma orquestração até a entrada de um violão e o vocal sereno e emotivo de Peter Nicholls. A faixa então novamente ganha uma cadencia mais excitante até que parece ter chegado ao seu fim, com os instrumentos sendo executados de maneira "bagunçada" e caótica fazendo parecer que é o fim da faixa. Mas então tudo volta a mesma instrumentação inicial da faixa, sim, aquele que não me agradou, mas agora tem a vantagem de ser um som mais encorpado com direito a um bonito solo final de guitarra.

“Ocean” é uma música que confesso ter demorado até que pudesse de fato apreciá-la. Uma canção de clima pastoral, bucólico e atmosfera pura muitas vezes por conta do clima criado pelo teclado de Neil Durant que é completamente influenciado por Tony Banks. Uma balada simples que vai crescendo conforme nos acostumamos com ela. Destaque também para dos vocais emotivos.

“Until the End” encerra o primeiro CD de forma positiva. Após introdução de cerca de três minutos em tom de balada, a música entra em uma crescente onde os trabalhos de maior destaque ficam por conta da bateria criativa e enérgica de Paul Cook e as ótimas linhas de baixo de Tim Esau. Mas toda a banda desempenha bem o seu papel. Vocal, ambientação criada pelo teclado e uma bela guitarra de final. Uma música que soa de forma menos obscura que boa parte do resto do álbum, ainda que seu final seja um tanto melancólico.


CD2:

O CD 2 abre com “Knucklehead” através de uma seção rítmica que remete a sonoridades indianas. Um dos melhores trabalhos de guitarra do álbum está nessa faixa. Desde a parte acústica que encerra a linha indiana, seguido por um trabalho pesado e um bom arpejo. A seção rítmica é algo que brilha durante absolutamente toda a canção. Uma música de começo sereno e de final de cadencia enérgica.

"1312 Overture", o nome da faixa é uma alusão bem-humorada a peça “1812” do compositor russo PyotrTchaikovsky (1840 – 1893). Uma curta faixa instrumental em que Neil é o maior destaque criativo, nos brindando de maneira ímpar com um trabalho que por si só vale por toda a música. Não é complexo, mas é belo e progressivo.

“Cosntellations” sem dúvida alguma é um dos melhores momentos do álbum. Já no início carrega uma excelente percussão e mellotron. Poucas vezes durante toda a carreira da banda nota-se um grupo com o grau tão elevado de inspiração. Os vocais de Nichols estão no seu ápice de beleza e emotividade, compelido para a grandiosidade e excelência novamente dos teclados, esses por sua vez impulsionados por linhas de baixo corpulentas e uma condução rítmica sensacional de bateria. Holmes que até então só havia feito bons trabalhos de guitarra, aqui finalmente brilha junto dos demais pra compor um som que já nasceu com status de clássico. Com claras influências de Genesis a banda atingiu um apogeu musical como poucas vezes foi visto durante a carreira. Sensacional.

O álbum segue agora com a belíssima, "Fall and Rise". Uma balada sublime em que Tim brilha com o seu baixo fretless através de linhas maravilhosas entrelaçadas a bateria sinuosa de Cook. No meio da faixa, Holmes mostra o quão bom também é no violão em um solo simples, mas ao mesmo tempo, de bastante feeling, bem no estilo guitarra espanhola e que casa muito bem com os vocais de Nichols. Outra vez os teclados de Neil Durant são excepcionais.

"Ten Million Demons" é mais um dos momentos arrepiantes do álbum. Começa isoladamente com algumas notas de baixo que logo ganha a companhia dos demais instrumentos. O que Neil Durante faz nessa música não pode ser considerado menos do que soberbo. As progressões de acordes escolhidas pelo tecladista são maravilhosamente saborosas de ouvir. Se existe alguém que faz com que essa música seja da grandeza que é com certeza essa pessoa é o Sr.Durant. Sempre com nítidas influências em Tony Banks, mas sabendo se apresentar de forma singular. Ouvi-la com um fone de ouvido e luzes apagadas é uma forma mais barata de viajar pra fora de órbita.

"Hardcore" é a faixa que finaliza o álbum. Uma sonoridade triste, gótica, fazendo lembrar o compositor clássico alemão Wagner, mas claro, dentro de um contexto progressivo, injetando uma carga sombria na música. Destaque também para o uso do mellotron, executado de forma melíflua. O álbum finaliza com sua música mais fúnebre. O baixo de Tim tem um breve momento de solo, sempre carregado com notas tristes. Holmes faz uma mescla entre duas de suas influências, Steve Hackett e Anthony Phillips pra compor um final acústico para o álbum.

Perceber que ao contrário do que costuma acontecer com muitas bandas com bom tempo de estradas, o IQ lançou seus melhores álbuns a partir dos anos 2000. A produção, o som, a qualidade das músicas, enfim, tudo ficou impecável. Vida longa a uma banda que depois de tanto tempo de estrada não se acomoda, mas procura de fato fazer sempre algo melhor do que o que foi feito anteriormente. Indispensável.


Track Listing


DISC 1:

1.From the Outside In - 7:24
2.The Road of Bones - 8:32
3.Without Walls - 19:15
4.Ocean - 5:55
5.Until the End - 12:00

DISC 2:

1.Knucklehead - 8:10
2.1312 Overture - 4:17
3.Constellations - 12:24
4.Fall and Rise - 7:10
5.Ten Million Demons - 6:10
6.Hardcore - 10:52

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terça-feira, 19 de abril de 2016

Caravan - In the Land of Grey and Pink (1971)


Considero “In the Land of Grey and Pink” da Caravan o melhor disco da cena Canterbury. Uma verdadeira estranheza musical inglesa temperada com um pouco de capricho, exatamente o que a vertente pede, com muito rock progressivo, jazz e música psicodélica.

O disco abre com “Golf Girl”, uma música tipicamente britânica, letras divertidas e de uma batida comercial bem com a cara das canções feitas na era pós-psicodélica. Daquele tipo que coloca o ouvinte pra cima e o faz querer cantar junto. O destaque fica por conta de um órgão bastante criativo dando o tom através de uma bela cama melódica para a música.

“Winter Wine" tem uma linha vocal que me faz remeter ao Moody Blues. Também carrega uma encantadora melodia folk enraizada nas praticadas por Roy Harper. Mas apesar dessas duas referências, o som é bastante singular. Richard Sinclair fez nessa faixa uma espécie de premonição da musicalidade que levaria em sua ida ao Camel no final dos anos 70. Carrega uma instrumental com seção rítmica de guitarra simples, porém extremamente agradável. Confesso que se eu fosse criticar algo, criticaria os trabalhos de teclados que ficaram basicamente relegados, mas mesmo assim, uma grande canção.

A terceira faixa do álbum, “Love to Love You (And Tonight Pigs Will Fly)”, é uma música que eu defino como extremamente enganadora em vários aspectos, e que pode ser vista como somente uma canção pop, fato que não é. Algo que passa despercebido, por exemplo, é que ela é completamente feita em 7/8, uma característica progressiva inclusive, mas quase camuflada aqui. Outro ponto é a letra cantada sobre um arranjo aparentemente doce e inocente, passa longe de ter esse resultado quando analisada mais a fundo, podendo-se notar inclusive toques bastante obscuros. Uma canção que soa simples, mas possui as suas peculiaridades.

“In The Land Of Grey And Pink” é uma canção simples e muito bem cadenciada pelo baixo, bateria e guitarra acústica, além, claro, sem deixar de mencionar o belíssimo solo de piano que encaixa perfeitamente no meio da canção. Não existe muito a que se destacar aqui, mas ao mesmo tempo não a nada pra ser criticado também. Tudo soa como tem que soar.

Mas o melhor do álbum está no final através de, “Nine Feet Underground". Um épico de quase vinte e três minutos dividido em oito capítulos. A faixa é uma grande mistura de música sinfônica, progressiva e psicodélica, com inúmeras peças de solos se espalhando por toda parte. O que torna esta canção uma obra tão significativa pra mim é o fato de que ela permaneça interessante em toda sua totalidade, independentemente da grande quantidade de tempo solando. Todos os instrumentos interagem o tempo todo para fornecer este resultado aventureiro que é abundante em criatividade e melodia. Umas das grandes suítes produzidas na frutífera primeira metade da década de 70 para o rock progressivo.

Não há o que dizer em relação a cena Canterbury e o álbum “In The Land Of Grey And Pink” senão que trata-se do maior exemplo de um dos grandes movimentos musicais do rock progressivo. Uma verdadeira joia e que serviu de espelho pra tantos outros tesouros que vieram em seguida. Altamente recomendado.


Track Listing

1.Golf Girl - 5:05
2.Winter Wine - 7:46
3.Love To Love You (and Tonight Pigs Will Fly) - 3:06
4.In The Land Of Grey And Pink - 4:51
5.Nine Feet Underground - 22:40 

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segunda-feira, 18 de abril de 2016

Mike Oldfield - Tubular Bells (1973)



Eu sempre acho até engraçado quando imagino um quase desconhecido Mike Oldfield de apenas 19 anos perambulando de gravadora em gravadora para que uma delas o ajudasse a lançar seu álbum com apenas duas faixas, sendo cada uma com mais de 23 minutos de duração. Imagino as pessoas perguntando, “e você toca o que meu jovem?” Tendo como resposta vinda por parte do rapaz e de maneira lacônica a seguinte frase: "Toco quase todos os instrumentos." 

Acontece que depois de muitas rejeições (que ele esperava passar, obviamente) Mike encontrou Richard Branson, que com sua nova gravadora, Virgin Records, estava disposto a apoiar o projeto ambicioso e catalogá-lo com o número V2-001, o primeiro álbum lançado pela Virgin Records. 

Tubular Bells não é o melhor álbum da história da música, o mais complexo, ou o mais espetacular, mas não me entendam mal, é um álbum fantástico e eu acredito que uma obra-prima, mas o mérito real e com todo respeito aos seus músicos, está em Mike Oldfield que teve a coragem de perseguir um sonho e escreveu o álbum incrivelmente estranho, apesar de todos os riscos que o projeto levaria. Uma obra extremamente audaciosa.

Os primeiros segundos da faixa é sem dúvida alguma a parte mais conhecida pelas pessoas, porque a introdução repetitiva criou a atmosfera perfeita para o filme "O Exorcista". Um fato interessante e nem sempre observado é que não é literalmente uma repetição, existem variações sucessivas ao longo de um mesmo tema, porque cada vez que ele volta para o refrão original, ele acrescenta um novo instrumento ou um coro, tornando tudo um excelente arranjo que nos introduz ao incrível mundo de Oldfield. 

Depois de algumas repetições, de repente, vem a explosão, do nada um solo de guitarra distorcida pega o ouvinte de surpresa, então tudo se torna muito complexo e é difícil acompanhar as mudanças radicais trazidas pela música. 

Detalhar toda a canção é algo que não me julgo capacitado em fazer, mas um outro bom momento na primeira faixa é por volta do minuto dezesseis onde tudo fica mais estranho em um clima depressivo, um excelente baixo dá início a seção final, quando Vivian Stanshall começa a anunciar um por um cada instrumento que é adicionado à equação até a faixa chegar ao clímax com os sinos tubulares, maneira simples e brilhante para fechar a primeira parte do álbum. 

A segunda parte começa mais calma, serena, em um clima até mesmo pastoral, a música flui suavemente, Mike dando a chance de provar sua versatilidade em alguns instrumentos incomuns para o rock como uma gaita soando como guitarra, bandolim e glockenspiel, mas novamente ele tem algo totalmente inesperado reservado ao ouvinte. 

Quando a faixa está por volta de oito minutos, inicia-se uma maravilhosa dissonância e novamente do nada algumas vozes "assombram" a música antes da banda aparecer, é chocante, mas ao mesmo tempo cheio de paixão, forte e dramático, mesmo se o ouvinte não tem a menor ideia mais aprofundada do que está sendo feito, ele irá se pegar preso na música, imaginando épicos do cinema, por exemplo. Mas novamente vem uma mudança radical, uma seção acalma tudo, sendo interrompido por explosões curtas de guitarras metálicas que nos preparam para o ainda mais inesperado final. Um quase clima barroco (impressionante como alguns artistas progressivos da época gostavam dessa linha musical) traz também solos de órgão. Em seu fim, a faixa traz "The Sailor's Hornpipe" (mais conhecido como o tema Popeye), soa um pouco estranho no contexto final do álbum após uma linda passagem de guitarra. Mas a realidade é diferente, originalmente esta seção foi ainda mais estranha, porque Vivian Stanshall fornecia uma narração em quadrinhos como guia de turismo mostrando o ouvinte todo o Manor House, onde o álbum foi gravado. 

Tubular Bells é uma obra verdadeiramente grandiosa, arrojada e desafiadora, ainda mais quando tem na sua liderança um multi-instrumentista de apenas 19 anos e praticamente desconhecido. Um disco histórico que serviu como excelente cartão de visita de Mike Oldfield para com o mundo da música. 

Track Listing 

1.Tubular Bells part 1 - 25:00
2.Tubular Bells part 2 - 23:50

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domingo, 17 de abril de 2016

Gentle Giant - Power And The Glory (1974)




Entre tantas pérolas lançadas pelo Gentle Giant em tão pouco tempo, existe aquela que brilha mais do que as outras na visão desse que vos escreve e se chama The Power and the Glory. Um verdadeiro petardo e aula de uma banda trabalhando como banda. Não existe um destaque senão o trabalho como um todo.

O álbum começa de maneira fantástica, "Proclamation" tem uma grande melodia e uma composição relativamente complexa, seu início traz um som único de órgão executado de forma discreta, seguido pela voz inconfundível de Derek Shulman junto a linha de baixo muito bem cadenciada pelo seu irmão Ray Shulman. Uma abertura que define perfeitamente bem o tom geral da faixa. Gosto bastante também da maneira como Derek a canta. Tem uma grande mistura entre tons altos e baixos. A música flui bem com teclados e baixo fazendo o papel principal.

"So Sincere" tem uma maneira bem discreta de fluir, com influência significativa de música de vanguarda. Desta vez, quem domina a canção é o violino e violoncelo, com alguns preenchimentos de guitarra e piano. Um dos momentos mais interessantes da faixa é quando é cantado, "So Sin-Cere"...dá pra perceber que todos os instrumentos são tocados em multi direções, mas eles ainda assim mantem toda a harmonia global. Uma composição brilhante. Mesmo que não seja vista com bons olhos por muitos fãs da banda, eu gosto bastante do resultado final obtido aqui.

A terceira faixa, "Aspirations", tem um estilo balada, mas construído na veia prog. É uma ótima música, relativamente suave com o som do teclado. É uma faixa de letra bastante positiva, de frases como, "quando a poeira baixar, veremos todos os nossos sonhos se tornando realidade". Ótimo trabalho.

"Playing the Game" é realmente um progressivo da gema, falando a grosso modo, desde os seus vocais. Ela tem todos os elementos que a música típica prog sempre teve: dinâmica, relativamente complexa e mudanças de tempos incomuns. Mais uma vez, trata-se de uma faixa que que tem como abertura um som de teclado estranho, mas acompanhada por uma brilhante linha de baixo. Falando nele, sempre que eu escuto essa música eu percebo o quão dinâmico é tocado o baixo ao longo de todo os segmentos. Tem um ritmo relativamente otimista com algumas quebras agradáveis.

A quinta faixa, "Cogs in Cogs", é outra excelente trilha com uma intro onde todos os instrumentos são tocados simultaneamente e seguido pelo estilo único de vocal. Como é de costume, aqui também encontra-se uma grande variedade de andamentos, mas sendo executados sempre de maneira magistral pela banda, nunca se perdendo.

No God's a Man" é uma faixa melódica podendo ser equiparada até em algo na veia de "Aspirations", mas é um trabalho mais complexo. Grandes solos de teclados, clavinete e guitarra. 

"The Face" é uma faixa edificante com grande harmonia preenchida através de violino, violoncelo e violão, sendo todos tocados de forma extremamente habilidosa por Ray Shulman. Pouco mais de quatro minutos de puro swing e musicalidade deleitosa.

"Valedictory" é um prog rock direto fortemente influenciado pela música de hard rock, abre com um solo de bateria e guitarra. A música, então, flui bem quando é adicionado a linha vocal. Desta vez, a voz é realizada num tom alto e novamente em um desempenho de alta performance.

Com certeza "The Power and the Glory" é um dos mais complexos e desafiadores trabalhos do Gentle Giant, cada faixa é bem posicionada e garante um prazer único ao ouvinte que se permite viajar em seu som. Cada membro contribui de maneira ímpar com o seu talento para a construção de um dos mais incríveis álbuns já criados.


Track Listing

1.Proclamation - 6:48
2.So Sincere - 3:52
3.Aspirations - 4:41
4.Playing the Game - 6:46
5.Cogs in Cogs - 3:08
6.No God's a Man -4:28
7.The Face - 4:12
8.Valedictory - 3:21

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sábado, 16 de abril de 2016

Camel - Rajaz (1999)



Após uma década de 70 em quase sua totalidade bastante interessante, o final da mesma e os anos oitenta foi a época de dividir boa parte dos fãs do grupo entre os que aceitavam aquela sonoridade que fugia das suas raízes progressivas e os que não se interessavam tanto mais pelo que a banda vinha fazendo em álbuns como The Single Factor e Stationary Traveller. Mas seguindo o bom e velho ditado em que diz que depois da tempestade a bonança, após um hiato de sete anos, os anos noventa serviram pra banda voltar com suas raízes progressivas que pareciam terem sido senão totalmente esquecidas, mas pouco utilizadas em trabalhos anteriores.



Essa espécie de “regresso as origens” resultou em três ótimos trabalhos na década de 90, sendo Rajaz, na opinião desse que vos escreve, o ápice da criatividade da banda naquele período, podendo ser citado inclusive como o melhor álbum desde a trinca que no geral os fãs escolhem como seus melhores discos, Mirage, The Snow Goose e Moonmadness. Rajaz trata-se de um álbum conceitual em que conceito está no próprio encarte que tem escrito o seguinte: “A música dos poetas conduzia antigamente as caravanas através de grandes desertos. Cantada ao ritmo dos passos dos camelos, despertava cansados viajantes para seu único objetivo...o fim da jornada. Esta poesia é chamada "Rajaz". Ao ritmo do camelo.” Enfim, o tema do álbum é basicamente sobre a solidão do deserto e todos os seus mistérios. Muito interessante também é como a banda conseguiu criar uma sonoridade totalmente condizente com a temática do álbum, transportando o ouvinte pro meio do deserto. Novamente, Andy Latimer mostra extrema capacidade em criar melodias muito belas e inspiradas, além de letras de grande carga emocional.


O início do álbum é através da faixa instrumental “Three Wishes”, com um começo que nos remete a “Shine You Crazy Diamond” do Pink Floyd, só que um pouco mais sombrio, ganha uma mudança de andamento se tornando um excelente início de jornada para o álbum. Guitarras e teclados tocados de forma bastante sólidas e com interessantes mudanças de humor. 

“Lost and Found” é uma variação de passagens instrumentais suaves e, outras mais veementes, através de sintetizadores influenciados pela música oriental e linha de baixo extremamente idônea pra ocasião. A guitarra de Andy Latimer também merece destaque, sobretudo na parte final da música, com uma bela instrumentação a desacelerar o clima da faixa. Ainda sobre o guitarrista, seus vocais estão bem suave e com timbres baixo, nada de excepcional, mas serve como uma luva pro tema do álbum.

Chegado a “The Final Encore”, novamente a influência da música oriental aparece em grandes doses. Uma faixa que não me soa muito bem, de cadência lenta, faz parecer de fato que o ouvinte está andando em cima de um camelo, as teclas em algumas partes estão com uma sonoridade bastante 80’s e Andy está com um vocal demasiadamente melódico, parecendo um morto vivo. A faixa não chega a ser ruim, mas alguns detalhes poderiam ter sido mais bem trabalhados.

O quarto passo dessa jornada pelo deserto é o da música homônima ao álbum. “Rajaz” é uma faixa de caráter bastante melódico, onde a carga emotiva da sua execução é bem elevada por conta do vocal e guitarra de Latimer extremamente bem cadenciado e coeso com a temática do álbum. Também conta com um belo e relaxante solo de guitarra, ótima faixa.

“Shout”, confesso que é a canção do álbum que embora não ache ruim, é a que menos chama minha atenção, extremamente simples, um uso de moog totalmente sem propósito algum, além de que a música foge um pouco das atmosferas apresentada nas outras faixas, o que se tratando de álbum conceitual, é um ponto negativo.

Em “Straight To The Heart”, em alguns momentos, certas passagens de guitarras podem fazer o ouvinte remeter a faixa “Rajaz”, mas a semelhança é mais enganosa do que qualquer outra coisa. Uso de slide guitarra com muita propriedade, teclado, baixo e bateria fazem uma cama melódica a qual a guitarra e voz de Latimer deitam bem à vontade construindo um dos momentos mais bonitos do álbum, com direito a um solo final de extrema beleza e bom gosto.

A penúltima música é a excelente “Sahara”. Baseado no que disse mais lá no começo sobre o álbum ser de uma sonoridade bastante condizente com a temática, aqui é um dos momentos onde eles mais fazem isso com clareza. Um trabalho magistral por parte de Andy Latimer, o uso de guitarra jazzy e um solo fascinante, bateria e baixo preenchem seus espaços com ótimas seções rítmicas, além de novamente um excelente uso de teclas. A influência oriental aqui se apresenta de forma perfeita. Ainda que todos tenham feito bem o seu papel, é inegável que novamente o destaque é a guitarra de Andy Latimer. 

O ultimo trajeto dessa viagem pelo deserto é através de “Lawrence”, uma música de solo extremamente belo, mas tirando isso, não tem um atrativo tão grande assim, poderia ser mais curto, parece que a faixa se arrastou demais sem necessidade. “Rajaz” chega ao fim com uma música mais ou menos, ótimo solo, mas ainda assim, cansativa.

Bom, mesmo que com suas influências diferentes das usadas nos anos 70, em “Rajaz” a raiz progressiva do grupo está em extrema evidência, mostrando um trabalho criativo, inspirado e uma banda em sua melhor forma no período pós 70’s.

Track Listing

1.Three Wishes - 6:58
2.Lost And Found - 5:38
3.The Final Encore - 8:07
4.Rajaz - 8:15
5.Shout - 5:15
6.Straight To My Heart - 6:23
7.Sahara - 6:44
8.Lawrence - 10:46

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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Bacamarte - Depois do Fim (1983)



O ano era o de 1983, época que o rock progressivo por muitos especialistas estava dado como morto. A banda então através do disco de nome propício para a situação chamado, Depois do Fim, mostrou que talvez a chama do gênero tenha acalmado dentro da Inglaterra, seu principal reduto (e assim ficaria até o começo dos anos 90, apesar, claro, do surgimento de inúmeras bandas do chamado Neo-Prog), mas bandas de outros países estariam produzindo excelentes trabalhos. 

A música do Bacamarte é rica e sinfônica, com teclados maravilhosos e uma excelente flauta que ilumina as composições cheias de pompas. A banda tem suas maiores influência na escola italiana de rock progressivo, espelhando em bandas como, Locanda del Fate, Premiata Forneria Marconi e Quella Vecchia Locanda.

O álbum começa através de, "UFO", com alguns belos acordes de guitarras acústicas bem com a cara de grandes violonistas brasileiros do passado. A música move-se a uma espécie de serenata, adoçada por flautas Guarani. Depois a banda pega um balanço mais rock 'n' roll com um majestoso sintetizador. Contém outro movimento onde a cadencia destacada fica por conta do dedilhado de guitarra e passagens de teclado. A flauta em seguida volta a participar ativamente da música junto do sintetizador. Excelente começo.

"Smog Alado" mostra claramente influências da banda em uma linha perto de Jethro Tull, Camel e Emerson Lake & Palmer. Os vocais de Jane Duboc aparecem em uma espécie de estado de espírito renascentista (outro fator de influência), forte, decisivo, atraente. Parte final da música é muito sinfônica e cativante.

"Miragem" abre com algumas músicas orientais, logo substituídas por guitarras ácidas, que permeia a metade da faixa, até que uma flauta entoando uma bela canção é adicionado dando uma sensação deliciosa. O ritmo de guitarra anterior retorna até que a música chegue ao seu final.

A quarta faixa é "Pássaro de Luz". Uma canção montada especialmente para a voz de Jane Duboc, tem guitarras acústicas agradáveis, a sensação geral é pueril, sonhadora. Não a o que dizer, só que é um belo trabalho.

"Cano", mais uma curta canção do álbum, é o momento para os músicos mostrarem um pouco suas habilidades, embora a música pudesse ser maior para isso acontecer de forma mais impactante. De qualquer forma, o resultado final é bem satisfatório.

Então que é hora de ir de uma das músicas mais curtas para a mais longa do álbum através de, "Ultimo Entardecer". A faixa traz de volta a tendência sinfônica, soando como uma espécie de meio épico, acompanhado por letras filosóficas sobre morte, loucura, medo, esperança. Traz agradáveis sintetizadores, belas passagens de guitarra e maravilhosos seguimentos de piano. Os vocais de Duboc aparecem de maneira precisa como quem anuncia um diálogo entre os instrumentos.

"Controversia" abre com uma batida de bossa-nova notória, seguido de uma alquimia sonora que tem semelhança com uma jam session. De qualquer forma, nos dá uma sensação de ser um material pra ser de puro enchimento no álbum.

"Depois do Fim", música homônima ao álbum, é puramente sinfônica. O ambiente criado pela música é obscuro, vocais são sombrios, e a instrumentação é preciosa, enérgica, bem de acordo com o tema escatológico, o possível fim dos tempos, o apocalipse.

"Mirante das Estrelas", a faixa de encerramento, se encaixa bem porque resume todo o conteúdo do álbum, peça por peça, é como um quebra-cabeça que está sendo resolvido. Todas as melodias e acordes ouvidos ao longo do álbum é revivido de forma harmoniosa e divinamente. A parte melancólica e triste perto do final da música traz o desfecho em tom de serenidade e paz.

É isso, “Depois do Fim” é uma verdadeira joia dentro do rock brasileiro, sobretudo aos amantes de rock progressivo. Provavelmente o disco que melhor representa o Brasil dentro da crítica estrangeira em se tratando do gênero. Um petardo obrigatório. Incrível.


Track Listing

1.UFO - 6:26
2.Smog Alado - 4:11
3.Miragem - 4:54
4.Pássaro De Luz - 2:28
5.Caño - 1:59
6.Último Entardecer- 9:29
7.Controvérsia - 1:57
8.Depois Do Fim - 6:31

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Premiata Forneria Marconi - Per Un Amico (1972)



O progressivo italiano talvez seja o único que ao menos em número de bandas pode ser comparado ao inglês. Mas muito mais do que apenas demarcar a localidade feita pelas músicas de tantas bandas, o rock progressivo italiano é de uma peculiaridade sonora tão grande que também passou a ser o nome de uma vertente progressiva. Mais ou menos como o que ocorreu com o progressivo conhecido como cena Canterbury. Não precisa ser necessariamente uma banda italiana pra tocá-lo, assim como não adianta ser apenas italiana pra dizer que o toca. Ainda que em 95% das vezes isso ocorra somente com bandas da terra da bota mesmo. 

São muitos os grandes álbuns produzidos naquele país desde a década de 70, mas não apenas nessa época, ainda hoje é um dos solos musicais mais férteis que existe. Difícil escolher um pra falar sobre, mas não há dúvida alguma de que Per Un Amico da Premiata Forneria Marconi é um dos mais espetaculares já feitos. Assim como a própria banda é sem dúvida alguma um dos nomes mais importantes do rock progressivo italiano ou mesmo mundial. 

O álbum começa com a faixa, “Appena un Po'”. Uma grande peça, o começo calmo e tranquilo, muito sinfônico e pastoral, com agradáveis melodias medievais e folclóricas logo dão espaço para um momento complexo, onde ocorre uma fusão jazz-rock antes do início dos vocais. Traz vozes calmas e suaves, com um belo coral apenas para ser suplantada por uma parte agradável, muito progressiva, onde todos os instrumentos atuam de maneira homogeneamente agradáveis. Em seu final, a música torna-se grandiosa, com um excelente teclado. Vale lembrar que podemos notar influências em Gentle Giant, Jethro Tull e principalmente King Crimson. Excelente maneira de abrir o álbum.

"Generale" é muito cativante. Aqui são as guitarras que dominam em meio a todos os outros instrumentos, possui uma atmosfera extremamente rock 'n roll principalmente na sua primeira metade, quando há uma quebra no ritmo dando lugar a um clima folk por parte da flauta, violino e órgão que desenham um grande final para a faixa.

"Per un amico" a faixa-título, tem o seu início através de uma encantadora flauta, logo tendo início os vocais, acompanhado por um maravilhoso e significativo uso e mellotron. Seção de solo é intensamente compartilhada entre violino e violão, com uma presença marcante de um baixo pesado. Sintetizadores e piano fazem um magnífico encerramento.

"Il Banchetto" é para mim o protótipo do tamanho médio de uma canção prog-rock (quase nove minutos). É realmente uma Banchetto (festa) para os ouvidos. Possui mudanças contínuas em seu andamento. A serenata inicial com vozes suaves e guitarras começa a de repente entrar em uma crescente, uma espécie de sonoridade etérea, agradável, clara, suave, enfim, uma música majestosa. A seção do meio nos transporta a uma irrealidade, devaneio onde o ouvinte literalmente voa para longe em mundos distantes e impressionantes. Tem uma parte final calma e sofisticada após um solo de piano. Sem sombra de dúvidas, minha música preferida do álbum.

"Geranio", a faixa que encerra o disco, tem grandes momentos, mas com menos energia do que músicas anteriores. No entanto, é uma música com a marca registrada da Premiata Forneria Marconi, um início suave e agradável, um núcleo sempre incrível com grandes variações e um final muito surpreendente. "Per Un Amico" tem um final mais do que digno.

Um marco do progressivo italiano, idealizado pela banda que mais influenciou e influencia grupos dentro do seu país. Um disco sem nenhum defeito, extremamente coeso e agradável aos ouvidos dos amantes de prog rock e que não se importam com músicas cantadas fora do idioma inglês. Maravilhoso.



Track Listing

1.Appena un Po' - 7:43
2.Generale - 4:18
3.Per un Amico - 5:23
4.Il Banchetto - 8:39
5.Geranio - 8:03

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