segunda-feira, 25 de abril de 2016

Renaissance - Scheherazade & Other Stories (1975)



Às vezes me pergunto sobre o que chamamos de rock progressivo sinfônico. Bom, sem sombra de dúvidas que as duas mais importantes nessa questão são Yes e Genesis, mas não creio que existe uma banda que consiga fazer essa definição soar de forma tão coesa e certeira como é o caso do Renaissance. A voz operística de Annie Hasslam é algo totalmente único no mundo musical e representam por si só o que a palavra sinfônica deve significar. E com certeza encontra-se em sua melhor forma em Scheherazade & Other Stories.

Renaissance é uma banda que sempre foi mais calcada em piano e vocais com arranjos elaborados, mas às vezes um pouco leve em comparação com a maioria das bandas de progressivo 70's, não fraco ou sem impacto, mas mais suave, apenas. Usando uma comparação com o boxe, se Genesis, Yes ou Emerson Lake & Palmer, são pesos pesados que podem matar o oponente com o primeiro (golpe) acorde, Renaissance é como um dos médios, que também precisa de estilo e elegância para vencer a luta.

“Scheherazade & Other Stories” trata-se de um álbum conceitual baseado nos contos árabes das 1001 noites. A base musical da obra está na suíte sinfônica, “Scheherazade” do compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov. A história que é contada no álbum é sobre Scheherazade, uma bela jovem, condenada a se tornar mais uma de suas ex-esposas, já que o mesmo, com medo de traição tinha o terrível hábito de decapitá-las após a noite de núpcias. Aí é que entra a barato da história, pra escapar desse destino que todas as suas outras mulheres tiveram, ela contava uma história para o sultão, ou melhor dizendo, mais um capítulo de uma história que ela jamais terminava, deixando ele assim curioso, e por consequência poupava sua vida, ao menos a princípio, pois ficava interessado no capítulo seguinte que ela tinha pra contar. Fez isso por incríveis 1001 noites, quando enfim, o sultão desistiu da sua intenção, fazendo de Scheherazade, sua rainha. E é com base nesse conceito que ““Scheherazade & Other Stories” foi desenvolvido.

"Song of Sheherezade" um épico de 24 minutos, é tão impressionante que as pessoas por conta dele costumam esquecer o resto do álbum, algo bastante injusto, porque o álbum pode ser visto como uma obra bem equilibrada e todas as faixas tem seus próprios méritos. Mesmo que realmente no fim das contas não tenham a grandeza daquela que fecha o trabalho.

O disco começa com, “"Trip to the Fair"”. Inicia-se com uma impressionante introdução de 3 minutos de piano sendo executado com extremo bom gosto, adicionado a uma leve mistura de coro e percussão, de repente é seguido pela maravilhosa voz de Annie. Talvez o problema com esta canção é que após a forte e enérgica abertura, a gente espere algo mais poderoso, mas a banda muda o sentido da música em direção a uma melodia suave a deixar o ouvinte em um mundo onírico, com alguns acordes de jazz que criam uma atmosfera viajante. Ao ouvinte mais exigente pode ser tratada como uma canção regular. Mas ainda assim, um grande começo de álbum.

"The Vultures Fly High" tem um saldo melhor, começa forte e termina da mesma maneira, menos sinfônica e mais orientada apenas em uma linha rock do que o resto do álbum, tem uma levada mais forte e rápida. Os membros da banda mostram que eles são capazes de fazer boas e curtas canções.

"Ocean Gypsy" é uma música mais suave, onde novamente os vocais de Annie são o destaque, com a participação evidente do resto dos membros, essa música é mais previsível do que todas as outras faixas, mas também bastante encorpada, deixando bem claro que a Renaissance é uma banda completa, não apenas um grupo de piano e voz.

O álbum encerra com "Song of Sheherezade", sem dúvida, o trabalho mais elaborado feito pela banda, um épico que tem tudo, exímios pianos, uma orquestra extremamente sólida, coro, além de excelente trabalho por parte de toda a banda. A atmosfera árabe é perfeita e os vocais de Annie Hasslam não são dignos de serem chamados de algo menores que sublimes. Possui mudanças espetaculares e explosões musicais súbitas. Uma beleza simplesmente fora do comum. Tudo feito com total cuidado, onde cada frase é encaixada como um perfeito quebra cabeça dentro de orquestrações que elevam o estado de espirito de quem as escutam.

Um álbum de rock progressivo sinfônico na sua maior essência. Uma sonoridade verdadeiramente mágica, com toda a certeza um dos mais originais também, pois ao contrário das demais bandas sinfônicas que citei mais acima, em momento algum o Renaissance prega uma sonoridade virtuosa. Tudo flui de forma encantadora e surreal.

- Tiago Meneses -


Track Listing

1.Trip To The Fair - 10:48
2.The Vultures Fly High - 3:07
3.Ocean Gypsy - 7:05
4. Song Of Scheherazade - 24:52 

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5 comentários:

  1. E aê, Tiagão, El ProgRocker, tudo na mais perfeita desordem?
    Esse álbum é o meu preferido do Renaissance, disparado. Não que os outros sejam ruins, longe disso, mas porque eu acho que nesse eles atingiram a perfeição de sua proposta musical.
    Comentando sua resenha, sobre as peculiaridades do Renaissance em relação às outras bandas (principalmente as inglesas) do mesmo período, acho que as maiores diferenças estão nas seguintes particularidades:
    . excetuando o baixo elétrico, todos os instrumentos são acústicos; poucas são as vezes em que utilizam outros tipos de teclados.
    . eles quase nunca usam guitarra elétrica, quando usam é praticamente sem efeitos (pedais) ou distorções, muito menos solos de guitarra.
    . compensando a não utilização dos teclados variados, como fazem 99% das bandas de progressivo, tem-se uma verdadeira orquestra, muitas vezes completa, acompanhando a banda - e aí está um dos maiores diferenciais.
    . as músicas têm muito mais influência do folk e da música clássica do que do rock em si - na verdade, acho que o rock progressivo, progressivo mesmo, nem deveria ser chamado de rock, mas de música progressiva, ou, para ser mais correto ainda, música progressista.

    Fazendo um disco tão bom quanto esse, ficaria difícil de manter um padrão tão alto, mas até que Novella (menos) e A Song For All Seasons (mais) são discos totalmente excelentes; a decadência mesmo viria a partir do Azure D'Or, por muitos motivos - cheguei a escrever sobre isso quando postei uns discos deles lá n'O Pântano Elétrico há um tempão - se interessar, dê uma zoiada: http://opantanoeletrico.blogspot.com.br/search?q=renaissance

    Valeu, meu camarada, grande postagem!
    Abs!

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    1. Com certeza, Merceleza. Manter um elevado grau de excelência por vários trabalhos é algo que poucas bandas de progressivo conseguiram. Citaria nesse caso o Genesis de Nursery Cryme a A Trick of the Tail (5 álbuns), Gentle Giant de Octopus a Free Hand (4 álbuns), a trinca do Yes com The Yes Album, Fragile e Close to the Edge ou a Van Der Graaf Generator do
      H To He, Who Am The Only One ao Still Life (4 álbuns) como uns dos poucos exemplos. A Renaissance tem uma boa trinca com Ashes Are Burning e Turn Of The Cards junto ao supracitado, mas não chega a tanto. E realmente, a banda desandou a partir de Azure D'or. Mas confesso que até gostei do último da banda, Grandine il Vento, de 2013...tem inclusive participação do Ian Anderson fazendo flauta em uma faixa.

      Obs: Claro que as bandas que citei possui outros álbuns que gosto (bastante até), quis apenas exemplificar o alto nível mesmo.

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  2. Ah, véi, olha só!
    Rush: 2112, A Farewell To Kings, Hemispheres, Permanent Waves, Moving Pictures, Signals (6)
    Led Zeppelin: I, II, III, IV, Houses Of The Holy, Physical Graffiti (6)
    Black Sabbath: Black Sabbath, Paranoid, Master Of Reality, Vol.4, Sabbath Bloody Sabbath, Sabotage (6)
    Iron Maiden: The Number Of The Beast, Piece Of Mind, Powerslave, Somewhere In Time, Seventh Son Of A Seventh Son (5)
    The Beatles: Help!, Rubber Soul, Revolver, Sgt. Pepper..., White Album (5)
    Essas bandas de progressivo não estão com nada!!! rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs
    Sacanagem... rsrsrsrsrs
    Abração!!!

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  3. Hum hum, A day in the life é bem progressiva pros padrões da época. Internet é f***

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    1. Não entendi a citação de "A Day in the Life".

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