sábado, 16 de abril de 2016

Camel - Rajaz (1999)



Após uma década de 70 em quase sua totalidade bastante interessante, o final da mesma e os anos oitenta foi a época de dividir boa parte dos fãs do grupo entre os que aceitavam aquela sonoridade que fugia das suas raízes progressivas e os que não se interessavam tanto mais pelo que a banda vinha fazendo em álbuns como The Single Factor e Stationary Traveller. Mas seguindo o bom e velho ditado em que diz que depois da tempestade a bonança, após um hiato de sete anos, os anos noventa serviram pra banda voltar com suas raízes progressivas que pareciam terem sido senão totalmente esquecidas, mas pouco utilizadas em trabalhos anteriores.



Essa espécie de “regresso as origens” resultou em três ótimos trabalhos na década de 90, sendo Rajaz, na opinião desse que vos escreve, o ápice da criatividade da banda naquele período, podendo ser citado inclusive como o melhor álbum desde a trinca que no geral os fãs escolhem como seus melhores discos, Mirage, The Snow Goose e Moonmadness. Rajaz trata-se de um álbum conceitual em que conceito está no próprio encarte que tem escrito o seguinte: “A música dos poetas conduzia antigamente as caravanas através de grandes desertos. Cantada ao ritmo dos passos dos camelos, despertava cansados viajantes para seu único objetivo...o fim da jornada. Esta poesia é chamada "Rajaz". Ao ritmo do camelo.” Enfim, o tema do álbum é basicamente sobre a solidão do deserto e todos os seus mistérios. Muito interessante também é como a banda conseguiu criar uma sonoridade totalmente condizente com a temática do álbum, transportando o ouvinte pro meio do deserto. Novamente, Andy Latimer mostra extrema capacidade em criar melodias muito belas e inspiradas, além de letras de grande carga emocional.



O início do álbum é através da faixa instrumental “Three Wishes”, com um começo que nos remete a “Shine You Crazy Diamond” do Pink Floyd, só que um pouco mais sombrio, ganha uma mudança de andamento se tornando um excelente início de jornada para o álbum. Guitarras e teclados tocados de forma bastante sólidas e com interessantes mudanças de humor. 


“Lost and Found” é uma variação de passagens instrumentais suaves e, outras mais veementes, através de sintetizadores influenciados pela música oriental e linha de baixo extremamente idônea pra ocasião. A guitarra de Andy Latimer também merece destaque, sobretudo na parte final da música, com uma bela instrumentação a desacelerar o clima da faixa. Ainda sobre o guitarrista, seus vocais estão bem suave e com timbres baixo, nada de excepcional, mas serve como uma luva pro tema do álbum.

Chegado a “The Final Encore”, novamente a influência da música oriental aparece em grandes doses. Uma faixa que não me soa muito bem, de cadência lenta, faz parecer de fato que o ouvinte está andando em cima de um camelo, as teclas em algumas partes estão com uma sonoridade bastante 80’s e Andy está com um vocal demasiadamente melódico, parecendo um morto vivo. A faixa não chega a ser ruim, mas alguns detalhes poderiam ter sido mais bem trabalhados.

O quarto passo dessa jornada pelo deserto é o da música homônima ao álbum. “Rajaz” é uma faixa de caráter bastante melódico, onde a carga emotiva da sua execução é bem elevada por conta do vocal e guitarra de Latimer extremamente bem cadenciado e coeso com a temática do álbum. Também conta com um belo e relaxante solo de guitarra, ótima faixa.

“Shout”, confesso que é a canção do álbum que embora não ache ruim, é a que menos chama minha atenção, extremamente simples, um uso de moog totalmente sem propósito algum, além de que a música foge um pouco das atmosferas apresentada nas outras faixas, o que se tratando de álbum conceitual, é um ponto negativo.

Em “Straight To The Heart”, em alguns momentos, certas passagens de guitarras podem fazer o ouvinte remeter a faixa “Rajaz”, mas a semelhança é mais enganosa do que qualquer outra coisa. Uso de slide guitarra com muita propriedade, teclado, baixo e bateria fazem uma cama melódica a qual a guitarra e voz de Latimer deitam bem à vontade construindo um dos momentos mais bonitos do álbum, com direito a um solo final de extrema beleza e bom gosto.

A penúltima música é a excelente “Sahara”. Baseado no que disse mais lá no começo sobre o álbum ser de uma sonoridade bastante condizente com a temática, aqui é um dos momentos onde eles mais fazem isso com clareza. Um trabalho magistral por parte de Andy Latimer, o uso de guitarra jazzy e um solo fascinante, bateria e baixo preenchem seus espaços com ótimas seções rítmicas, além de novamente um excelente uso de teclas. A influência oriental aqui se apresenta de forma perfeita. Ainda que todos tenham feito bem o seu papel, é inegável que novamente o destaque é a guitarra de Andy Latimer. 

O ultimo trajeto dessa viagem pelo deserto é através de “Lawrence”, uma música de solo extremamente belo, mas tirando isso, não tem um atrativo tão grande assim, poderia ser mais curto, parece que a faixa se arrastou demais sem necessidade. “Rajaz” chega ao fim com uma música mais ou menos, ótimo solo, mas ainda assim, cansativa.

Bom, mesmo que com suas influências diferentes das usadas nos anos 70, em “Rajaz” a raiz progressiva do grupo está em extrema evidência, mostrando um trabalho criativo, inspirado e uma banda em sua melhor forma no período pós 70’s.

- Tiago Meneses - 


Track Listing

1.Three Wishes - 6:58
2.Lost And Found - 5:38
3.The Final Encore - 8:07
4.Rajaz - 8:15
5.Shout - 5:15
6.Straight To My Heart - 6:23
7.Sahara - 6:44
8.Lawrence - 10:46

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2 comentários:

  1. Mesmo os discos mais fracos, como Single Factor e Stationary Traveller, têm músicas excelentes; acho que a saída do Andy Ward prejudicou demais a banda, porque os bateras que tocaram depois, principalmente nos anos 80, tem uma pegada mais reta, bem mais simples, o que deixou o som do Camel, digamos assim, com uma cara mais "comercial". É o que estraga o discos Pressure Points (Live), por exemplo.
    Nos anos 90 essa questão foi melhorando de discos a disco. A partir do Dust and Dreams a banda começou a retornar aos seu lado mais sinfônico; acho o Harbour Of Tears meio chato, me deixa aquela sensação de que ainda está faltando alguma coisa. Antes de escutar o Rajaz pela primeira vez, eu tinha essa sensação de que poderia me decepcionar, da mesma forma que achei meio decepcionante quase tudo o que a banda fez depois do Moonmadness (apesar de ter momentos brilhantes em todos álbuns dos final dos anos 70 - Nude é maravilhoso, por exemplo), mas Rajaz realmente me surpreendeu totalmente, um discaço do começo ao fim. A Nod and a Wink também não fica atrás; pena que tantas coisas ruins aconteceram à banda e ao Latimer em especial, talvez ainda pudéssemos desfrutar de mais obras sensacionais dessa que é uma das melhores bandas de prog de todos os tempos.
    Abração!!

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    1. Entre os dois primeiros álbuns dos anos 90, confesso que ainda prefiro o "Harbour Of Tears", tanto na música quanto em conceito (apesar de gostar das duas histórias), mas acho que em ambos ainda realmente falta algo que chegou em Rajaz. Mas como falei, na discografia da banda, nada conseguiu ser mais belo que Rajaz depois da trinca, "Mirage", "The Snow Goose" e "Moonmadness".

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